A Lição do Creoula

 

Cumpri o serviço militar já tarde. Depois de ter feito a instrução militar básica na Escola de Fuzileiros, em Vale de Zebro, fui colocado na Administração Central de Marinha, ali à Ribeira das Naus, juntinho ao Terreiro do Paço da nossa capital. Com 27 anos, já casado e pai, senti necessidade de equilibrar o orçamento familiar, pelo que aceitei trabalhar à noite numa empresa no Feijó, onde realizei uma auditoria contabilística. Criei então uma rotina a partir das 17:30 que passava por comer uns rissóis de berbigão na Baixa, depois dirigia-me à Doca da Marinha, apanhava a vedeta para a Base Naval do Alfeite, jantava na messe de oficiais às 19, autocarro para o Feijó às 20, (re)começava a trabalhar das 20:30 à meia-noite e meia e iniciava o percurso de retorno: autocarro até Cacilhas, cacilheiro para o Cais do Sodré, eléctrico para Alcântara, até que chegava (por volta das 2 da manhã) às instalações militares da Praça da Armada, onde pernoitava. Na manhã seguinte apanhava o eléctrico às 8:30, chegava à Direcção da Fazenda Naval pelas 9, fazia o turno da manhã, almoço, turno da tarde, e assim fechava o ciclo.
Porém, houve um dia que quebrei a rotina. Fui desafiado por uns camaradas, que habitualmente jantavam comigo, a ir visitar o navio-escola Creoula. Aquele que eu queria mesmo ver era o navio-escola Sagres, mas esse andava em viagem de longo curso e, portanto, tive de me contentar com o antigo bacalhoeiro que, à vela, percorreu as costas da Terra Nova na sua juventude. Como em tantas outras coisas na vida, o possível sobrepôs-se ao desejável, mas dei o tempo por bem empregue: aprendi uma lição valiosa.
Ali aprendi que um bom timoneiro, pelas decisões que toma, pode fazer a diferença entre o sucesso e o infortúnio… mas ouvi também da boca de um comandante que este sem a tripulação de nada valia. São tantas as tarefas a bordo que só sob uma rigorosa organização, num quadro de cooperação, de disciplina, de responsabilidade, de entreajuda e de harmonia entre os membros da equipa é possível levar um veleiro a bom porto. Ali aprendi que os méritos individuais são importantes e, como tal, são desejados. Podem mesmo fazer a diferença, porém, por muito bons que sejam, são sempre insuficientes. Um veleiro de 4 mastros exige sempre trabalho de coordenação em equipa e jamais deve sair do porto de abrigo sem estar imbuído de um forte espírito colectivo, já que o todo é sempre maior que a mera soma das partes.
Lembrei-me desta lição recentemente quando soube que Zeinal Bava e António Mexia haviam sido considerados entre os melhores CEO da Europa (gestores, para não complicar), elevando-os assim à condição de deuses do Olimpo. A avaliar pelo que ganham, é-me fácil acreditar que seriam capazes de navegar no Creoula sem guarnição… Ou não?
Notas:
Publicado na edição de 29Abr2010 do Jornal Brados do Alentejo;
As imagens foram colhidas nos sítios para os quais apontam as respectivas hiperligações.
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